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Localização: Coimbra, Coimbra, Portugal

Licenciado em Ciências da Informação

sexta-feira, novembro 03, 2006

Inventário

E, apesar de tudo, sou ainda o Homem,
Um bípede com fala e sentimentos!
Ao cabo de misérias e tormentos,
Continua
A ser a minha imagem que flutua
Na podridão dos charcos luarentos!

Sou eu ainda a grande maravilha
Que se mostra ao mundo!
O negro abismo que tem lá no fundo
Um regato a correr:
Uma risca de céu e de frescura
Que murmura
A ver se alguma boca a quer beber.

Quanto o grave silêncio da paisagem
Me renega e protesta,
Pouco importa na festa
Deste encontro feliz;
Obra de arcanjo ou satanás,
Eu é que fui capaz
De fazer o que fiz!

Podia ser melhor o meu destino,
Ter o sol mais aberto em cada mão...
Mas, Adão,
Dei o que a argila deu.
E, corpo e alma da degradação,
O milagre é que o Homem não morreu!

Não! Não me queiram na cova que não tenho,
Porque eu vivo, e respiro, e acredito!
Sou eu que canto ainda e que palpito
No meu canto!
Sou eu que na pureza do meu grito
Me levanto!

In "Poesia, Volume II",
Miguel Torga

Até que enfim fim-de-semana!
E dos grandes, eheheheh!


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